Gastrectomia Vertical Calibrada no tratamento da obesidade mórbida. Resultados a longo prazo, comorbilidades e qualidade de vida

Soraia Silva, António Milheiro, Luis Ferreira, Manuel Rosete, José Carlos Campos, João Almeida, Mário Sérgio, José-Guilherme Tralhão, Francisco Castro e Sousa

Resumo


Introdução e Objetivos: A Gastrectomia Vertical Calibrada (GVC) tem emergido nos últimos anos como procedimento isolado no tratamento cirúrgico da obesidade mórbida. Apesar de vários artigos terem dado conta dos seus bons resultados a curto e médio prazo em termos de perda de peso e melhoria das comorbilidades, tornam-se contudo necessários mais dados, para a avaliação objetiva dos efeitos da técnica a longo prazo. Avaliaram-se retrospetivamente os resultados obtidos pelo nosso grupo, em termos de complicações e sucesso terapêutico (percentagem de perda de excesso de peso ou percentagem de perda de excesso de índice de massa corporal e melhoria das comorbilidades) com a GVC. Foi, também, avaliada a melhoria da qualidade de vida com base no “quality-of-life assesment” (QOL) e calculado o “Bariatric Analysis and Reporting Outcome System” (BAROS). Material e métodos: Foram revistos os processos de 81 doentes (72.84% do sexo feminino) com obesidade mórbida, sujeitos a GVC, no nosso Hospital, entre 1 de Janeiro de 2005 e 31 de Outubro de 2011. Vinte e três pacientes haviam sido submetidos a um procedimento bariátrico prévio (28.39%): nove a colocação de balão intragástrico e 14 a gastroplastia com banda (GB). Em 79 utilizou-se a abordagem laparoscópica e em dois foi efetuada laparotomia mediana supra-umbilical. A média de idades foi de 49 ± 4.24 anos e o Índice de massa corporal (IMC) médio foi de 54.8 ± 13.1 Kg/m2. Dos doentes estudados, 18 eram diabéticos, 50 hipertensos, 21 tinham dislipidémia, 11 síndrome da apneia obstrutiva do sono, 22 patologia degenerativa osteoarticular e 23 síndrome depressivo. Foi ainda analisada uma população de 72 destes doentes com base no BAROS completada com uma entrevista telefónica realizada em Fevereiro de 2012. Resultados: Não se registou mortalidade operatória. Num doente teve que se realizar conversão para cirurgia aberta por aderências. A taxa de complicações pós-operatórias imediatas foi de 11.1% (fístula gástrica, abcesso ou hemorragia intrabdominal, insuficiência respiratória e celulite da parede abdominal); registaram-se, também, 11.1% de complicações tardias (estenose gástrica, doença de refluxo gastroesofágico (DRGE), neuropatia periférica por défice de Vitamina B12 e hérnia incisional). A média de percentagem de perda de excesso de peso ou de excesso de índice de massa corporal foi de 25.69 ± 9.72 no 1º mês, 59.87 ± 25.51 no 12º mês, 61.87 ± 24.93 no 18º mês, 54.08 ± 39.87 no 24º mês, 51.8 ± 44.64 no 36º mês, 55.49 ± 26.45 no 48º mês, 49.34 ± 31.31 no 60º mês e 45.98 ± 30.86 no 72º mês de pós-operatório. Em relação às comorbilidades, 71.7% foram resolvidas e/ou melhoradas. A caracterização dos resultados pelo BAROS dividiu a população em cinco grupos: Insucesso – 4.17% (n=3), Médio – 19.44% (n=14), Bom, Muito Bom e Excelente – 76.39% (n=27, 20 e 8, respetivamente). Conclusão: A GVC é um procedimento seguro e que permitiu obter bons resultados terapêuticos em termos de perda de peso, melhoria da patologia associada e da qualidade de vida. A GVC é um procedimento cirúrgico tecnicamente mais simples que o bypass gástrico (BG) e que pode, também, ser realizado por via laparoscópica, condicionando menor morbilidade. Parece existir uma tendência para o aumento de peso a partir dos quatro anos de pós-operatório, embora sejam necessários mais resultados a longo prazo para o confirmar.


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